‘Se tivesse uns pés destes, jogada ás setas á biqueirada’
Férenc 6.79
Eu nao sou um fa particular dos números 10. Talvez seja um recalcamento dos tempos em jogava á bola, na rua. Aí, normalmente, o numero 10 ( ou seja o médio atacante que jogava no centro atrás do gajo mais adiantado – normalmente o Zé Birrolho), era o Faleiro.
Até tínhamos uma modinha para lhe cantar quando o Faleiro tinha a bola: ‘Faleiro, Faleiro, passa a bola, nao sejas caixeiro’, com a música do Quicky Koala Show. Por cada posse de bola cantávamos, pelo menos, 3 vezes. Depois perdia-a. O Faleiro era um artista, a quem passávamos a bola á espera de um lance de génio que humilhasse a defesa contrária ou quando nao sabíamos o que fazer com ela porque nao conseguíamos fintar o gajo que tínhamos á frente. Com o Faleiro nao havia problema. Fintava tudo e todos. Até se fintar a ele mesmo, perder a bola, sofrermos um golo num contra-ataque e termos todos que o mandar pró caralho. Se o Faleiro fosse preto, sería o Sabry. Mas um pouco melhor. A questao toda é que o Faleiro nunca se esforçava para conquistar a bola, nao lutava com a equipa. Apenas a quería ter no pé para fintar e poder marcar a diferença. Ás vezes marcava, muitas outras nao. Porque lhe caíam 3 matuloes em cima e lhe davam uma joelhada na coxa, por trás. Quem marca faltas no futebol de rua??
Talvez tenha ficado complexado, mas sempre achei os números 10 francamente manientos, com pouco espírito de equipa e que a utilidade da sua arte nao é compensada pelas peneiras que têm. Mas gostava do Guetov (alô, alô
Algarve Desunited), um dos meus jogadores preferidos. Peneiras? pois tinha. Apesar das peneiras de um búlgaro serem diferentes. Vide Mihailov por exemplo, que apenas a participaçao num Campeonato do Mundo até lhe fez crescer cabelo na careca mais limpa que a do Caccioli.
Em 88, Plamden Guetov chegou ao Portimonense com o estatuto de astro do futebol internacional. Já em 86 tinha estado no México, compartindo tonturas de altitude e chili com carne com grandes vedetas do seu País, como o futuro ex-careca Mihailov, o possante Dimitrov, o ladino Gospodinov e o irritante Kostadinov, pelo que nao sentiu grandes problemas de ambientaçao ao chegar a Portimao e partilhar engates a cabeleireiras camones e sandes de coirato com outras estrelas de igual dimensao como o imponente Flóris, o cerebral Skoda ou o fuçador Cadorin. De facto, Guetov beneficiou da ausência da jovem esperança Stoichkov do Mundial, sancionado pela dura Federaçao búlgara por ter andado á porrada num jogo da taça, para se assumir como titular indiscutível e deixar a sua marca por terras aztecas com um golito contra a Coreia do Sul. O homem até jogou (e perdeu) contra a célebre Argentina campea mundial de Cucciffo, Burruchaga e El Pibe del Estômago-de-Vaca. Assim, a grande questao que se coloca é: Como diabo conseguiu o Portimonense contratar este gajo?? (alô, alô
Algarve Desunited)
Como se esperava tornou-se na grande referência da equipa e uma das estrelas do campeonato nacional. Todo o jogo ofensivo dos algarvios era validado pelos pés mágicos do jovem Plamden, obssecado em jogar prá frente e viciado em fazer fazer passes de morte. Mas a sua perdiçao eram mesmo os livres directos. O pobre Plamden, da mesma forma que toda a rapaziada de leste nao resiste a entrar num Lidl, tinha uma inapelável atracçao por bolas paradas em frente (ou mais ou menos) da baliza adversária. Era incontrolável. Olhava pra ela, cabecita de lado, tipo cachorrito que nao percebe o assobio que sai do rabo do seu dono e pensava: ‘Vou ter que te dar uma pázada bem dada, nao?’ Olhando para a bola, enquanto o árbitro se esforçava desumanamente para empurrar uma barreira absolutamente histérica de terror, dava já um passito para trás e para o seu lado direito, enquanto orientava o seu pé esquerdo. E depois, nada: A barreira em pânico, o público adversário resignado, os seus adeptos em júbilo, um passo de balanço e a bola dentro. Matemática pura. O homem era um controlo remoto humano e o seu pé um daqueles carros teleguiados com amortecedores que se vendem no Natal como churros.
Nao era o mais rápido nem o mais agressivo. Tao pouco o mais regular. Nao precisava. Num estilo percursor do Barbosismo (vénia, Chefe), era um génio que podía resolver o jogo de um momento para o outro: através de um regate imprevisível a talhar os rins de um pobre Barny qualquer, de uma abertura impossível que isolava Cadorin na cara de um guarda-redes aflito, do habitual livre orientado pelas coordenadas do seu GPS esquerdo. Ou simplesmente de um míssil á entrada da área, depois de aguentar cinco cargas dos desesperados adversários que iam ficando para trás, impotentes e derrotados, á espero do desfecho previsível.
Até há quem possa considerá-lo um pouco arrogante e pouco solidário dentro do campo. Mas só dizem isso quem nunca viu o Hristo jogar. Mas a verdade é que todos os numeros 10 têm um pouco de Faleiro. Certo é que a sua categoria marcou uma época em Portimao. E os dirigentes algarvios ficaram tal mal habituados que estavam tao convencidos que tinham encontrado o caminho para um filao inesgotável de vedetas. E na época seguinte poem-se a importar contentores de búlgaros (uma moda que se tornou quase nacional), entre os quais Voynov, futuro ponta de lança do Estoril-Praia (a afinidade dos canarinhos com o Algarve, nao é, como se vê, recente), que, tal como os seus companheiros Bezinski e Kachmerov nao fizeram história nenhuma e só fizeram o seu maestro encolher-se de vergonha.
Já em 96, no ocaso da sua carreira vamos encontrá-lo em Chaves, a sua vida uma parábola do costa-a-costa que nunca fez em campo, numa equipa que é uma tentativa frustrada de recuperar os áureos tempos de Radi, Slavkov e Karoglan. Para tal estao uns rapazes bem intencionados como Ottosson, Dacroce ou Quim Machado, cujo único problema que têm é terem que jogar á bola. E Guetov, já cansado e envergonhado por ver isto, decide partir, tentando deixar o seu legado nos pés do espanhol Toniño. Mas já tinha esgotado a sua conta de milagres...
* Grandes Pés, Sóce...