25.4.05

Este gajo tem GPS...*

‘Se tivesse uns pés destes, jogada ás setas á biqueirada’
Férenc 6.79

Eu nao sou um fa particular dos números 10. Talvez seja um recalcamento dos tempos em jogava á bola, na rua. Aí, normalmente, o numero 10 ( ou seja o médio atacante que jogava no centro atrás do gajo mais adiantado – normalmente o Zé Birrolho), era o Faleiro.

Até tínhamos uma modinha para lhe cantar quando o Faleiro tinha a bola: ‘Faleiro, Faleiro, passa a bola, nao sejas caixeiro’, com a música do Quicky Koala Show. Por cada posse de bola cantávamos, pelo menos, 3 vezes. Depois perdia-a. O Faleiro era um artista, a quem passávamos a bola á espera de um lance de génio que humilhasse a defesa contrária ou quando nao sabíamos o que fazer com ela porque nao conseguíamos fintar o gajo que tínhamos á frente. Com o Faleiro nao havia problema. Fintava tudo e todos. Até se fintar a ele mesmo, perder a bola, sofrermos um golo num contra-ataque e termos todos que o mandar pró caralho. Se o Faleiro fosse preto, sería o Sabry. Mas um pouco melhor. A questao toda é que o Faleiro nunca se esforçava para conquistar a bola, nao lutava com a equipa. Apenas a quería ter no pé para fintar e poder marcar a diferença. Ás vezes marcava, muitas outras nao. Porque lhe caíam 3 matuloes em cima e lhe davam uma joelhada na coxa, por trás. Quem marca faltas no futebol de rua??

Talvez tenha ficado complexado, mas sempre achei os números 10 francamente manientos, com pouco espírito de equipa e que a utilidade da sua arte nao é compensada pelas peneiras que têm. Mas gostava do Guetov (alô, alô Algarve Desunited), um dos meus jogadores preferidos. Peneiras? pois tinha. Apesar das peneiras de um búlgaro serem diferentes. Vide Mihailov por exemplo, que apenas a participaçao num Campeonato do Mundo até lhe fez crescer cabelo na careca mais limpa que a do Caccioli.

Em 88, Plamden Guetov chegou ao Portimonense com o estatuto de astro do futebol internacional. Já em 86 tinha estado no México, compartindo tonturas de altitude e chili com carne com grandes vedetas do seu País, como o futuro ex-careca Mihailov, o possante Dimitrov, o ladino Gospodinov e o irritante Kostadinov, pelo que nao sentiu grandes problemas de ambientaçao ao chegar a Portimao e partilhar engates a cabeleireiras camones e sandes de coirato com outras estrelas de igual dimensao como o imponente Flóris, o cerebral Skoda ou o fuçador Cadorin. De facto, Guetov beneficiou da ausência da jovem esperança Stoichkov do Mundial, sancionado pela dura Federaçao búlgara por ter andado á porrada num jogo da taça, para se assumir como titular indiscutível e deixar a sua marca por terras aztecas com um golito contra a Coreia do Sul. O homem até jogou (e perdeu) contra a célebre Argentina campea mundial de Cucciffo, Burruchaga e El Pibe del Estômago-de-Vaca. Assim, a grande questao que se coloca é: Como diabo conseguiu o Portimonense contratar este gajo?? (alô, alô Algarve Desunited)

Como se esperava tornou-se na grande referência da equipa e uma das estrelas do campeonato nacional. Todo o jogo ofensivo dos algarvios era validado pelos pés mágicos do jovem Plamden, obssecado em jogar prá frente e viciado em fazer fazer passes de morte. Mas a sua perdiçao eram mesmo os livres directos. O pobre Plamden, da mesma forma que toda a rapaziada de leste nao resiste a entrar num Lidl, tinha uma inapelável atracçao por bolas paradas em frente (ou mais ou menos) da baliza adversária. Era incontrolável. Olhava pra ela, cabecita de lado, tipo cachorrito que nao percebe o assobio que sai do rabo do seu dono e pensava: ‘Vou ter que te dar uma pázada bem dada, nao?’ Olhando para a bola, enquanto o árbitro se esforçava desumanamente para empurrar uma barreira absolutamente histérica de terror, dava já um passito para trás e para o seu lado direito, enquanto orientava o seu pé esquerdo. E depois, nada: A barreira em pânico, o público adversário resignado, os seus adeptos em júbilo, um passo de balanço e a bola dentro. Matemática pura. O homem era um controlo remoto humano e o seu pé um daqueles carros teleguiados com amortecedores que se vendem no Natal como churros.

Nao era o mais rápido nem o mais agressivo. Tao pouco o mais regular. Nao precisava. Num estilo percursor do Barbosismo (vénia, Chefe), era um génio que podía resolver o jogo de um momento para o outro: através de um regate imprevisível a talhar os rins de um pobre Barny qualquer, de uma abertura impossível que isolava Cadorin na cara de um guarda-redes aflito, do habitual livre orientado pelas coordenadas do seu GPS esquerdo. Ou simplesmente de um míssil á entrada da área, depois de aguentar cinco cargas dos desesperados adversários que iam ficando para trás, impotentes e derrotados, á espero do desfecho previsível.

Até há quem possa considerá-lo um pouco arrogante e pouco solidário dentro do campo. Mas só dizem isso quem nunca viu o Hristo jogar. Mas a verdade é que todos os numeros 10 têm um pouco de Faleiro. Certo é que a sua categoria marcou uma época em Portimao. E os dirigentes algarvios ficaram tal mal habituados que estavam tao convencidos que tinham encontrado o caminho para um filao inesgotável de vedetas. E na época seguinte poem-se a importar contentores de búlgaros (uma moda que se tornou quase nacional), entre os quais Voynov, futuro ponta de lança do Estoril-Praia (a afinidade dos canarinhos com o Algarve, nao é, como se vê, recente), que, tal como os seus companheiros Bezinski e Kachmerov nao fizeram história nenhuma e só fizeram o seu maestro encolher-se de vergonha.

Já em 96, no ocaso da sua carreira vamos encontrá-lo em Chaves, a sua vida uma parábola do costa-a-costa que nunca fez em campo, numa equipa que é uma tentativa frustrada de recuperar os áureos tempos de Radi, Slavkov e Karoglan. Para tal estao uns rapazes bem intencionados como Ottosson, Dacroce ou Quim Machado, cujo único problema que têm é terem que jogar á bola. E Guetov, já cansado e envergonhado por ver isto, decide partir, tentando deixar o seu legado nos pés do espanhol Toniño. Mas já tinha esgotado a sua conta de milagres...


* Grandes Pés, Sóce...

14 comments:

melga mike said...

Alô, Alô o camandre... eu sou mais seinfeld!

Pá, o pertimnense contratou o guetov do mesmo modo que contratou o bezinski... e que o belem contratou o grande mladenov (esse sim, um ser doutra galáxia) e o beira-mar o petrov ou o chaves o radi. São tudo gajos da safra méxico 86... gajos acabados de fazer 30 anus, a maioridade que os regimes de leste impunham para uma eventual saída pró estrangeiro. E acho que os italianos e espanhois não queriam assim muito esses moços nessas idades, pois não?

Ah, e cuidado com os apelidos que os Faleiros são os donos dos barcos que fazem a travessia entre o continente e a longínqua ilha da fzeta.

The great white leader said...

Os livres do Guetov ainda são rlembrados com saudade aqui em Portimão (mas também no estado em que a equipa está, até o Forbs deve ser considerado o nosso Van Basten).

Melhor ainda. Numa entrevista que concedeu a um jornal portugues á uns anitos atrás, o Guetov disse que foi ele que ensinou o Stoichkov a marcar livres...

melga mike said...

Novamente... ó marfade... também tu a menosprezar a classe de getov? Pá, não acho nada estranho que tenha sido o getov a ensinar ao Hristo a marcar livres... ainda no outro dia tive a falar com o treinador do Nelson Moutinho filho nas camadas jovens do Olhanense (onde era guarda-redes, depois foi para o Portimonense e chegou aos seniores como centrocampista) e ele diz que tava sempre a meter o João Moutinho (sim, esse) fora do campo, porque o puto era traquinas em monte e tava sempre a entrar no campo enquanto decorriam os treinos e mesmo os jogos.

Todes esses gajos que vierem do final da década de 80 para Portugal eram da Selecção bulgara que foi ao México 86. Eram a fina flor. Muitos deles com quá 100 internacionalizações...

Vê lá quantes reconheces:
http://www.planetworldcup.com/CUPS/1986/squad_bul86.html

E, sim, podes me foder a cabeça de não termos ganho ao felfeiras, resolviamos a nossa vidinha e ajudávamos a vossa, mas a vida é assim...

Ogre said...

não falar mal do dacroce, que o único problema que tinha era não ser decross. o batatal de chaves é histórico, e não o é por a minha terra.
o porto uma vez ganhou lá 4-2, com os golos do chaves a serem marcados por aloísio e secretário; e o sporting ganhou uma vez por 1-0, golo de iordanov (mais um búlgaro), depois de baston ter tentado fintar o líbero/defesa-central/trinco/médio-ofensivo/ponta-de-lança leonino.
já agora, consegues explicar como é que o homem jogava nestas posições todas, e nunca chegou a ser guarda-redes?

Férenc Meszaros said...

Nem consigo exlicar como é que o Iordanov conseguiu alguma vez jogar no Sporting! O melhor que o homem fez no Sporting foi subir ao marquês para meter o cachecol na estátua do leao.

melga mike said...

o iorda não entrava naquela seríe amaricana com a musica dos bitles do obadi obada e fazia de corky?

Pá, o Baston... digamos que o chaves nucna teve tradição de GR decentes... depois de fraudes como Padrão e Jesus, virou-se pró estrangeiro e pior que o Baston só mesmo o Gilmar. Ah, e tb foram buscar um conterraneo meu que agora anda à amêjoa, o Tavares que acho que vai ser o nome da 4ª serie do GF.

Dacroce era tipo Eliseu mas mais mirrade, naera? Acho bem é maneterem lá o diamantino brás, ainda que a faxineiro. Cá em Olhão a malta fartou-se de rir a vê-lo correr dum lade pró outre na pista de atletismo que já na existe à roda a levar merdas tipo paquete. Nice 'tache tough.

melga mike said...

Life Goes On, acho.

Férenc Meszaros said...

A essa lista de maus guarda-redes juntar Poleksic (que repetiu a triste figura no Clube Delta), Luis Vasco e o seu substituto o espanhol-como-Bastón-e-quase-tao-patético Arteaga.

Nao se pode falar do Chaves sem referir o meu jogador preferido da altura, o peitudo velocipédico Rui Alberto, que no alto dos seus 90 cm era um tormento para qualquer defesa. Mençoes honrosas para Vinagre, Manuel Correia e seu bigode, Paulo Alexandre e Vicente, um lateral esquerdo do tempo que o Chaves andou na UEFA (pré-Vinagre) que parecía o Átila do Duarte e Companhia.

melga mike said...

Esse átila agora vive aqui pra baixe, anda sempre a xular subsídios ó estade e o camandro lá prás suas pecinhas de tíatre.

Ainda nessa onda carloscruziana ausente de pelugem entre narina e beiçola, deixai-me recordar o vule ou vuke, referencia de leste pós-radi para lá do maroum. Não confundir com o Lubomir Vêélekápa do FCP.

Ogre said...

mas eles agora atinaram. o riça não é nada mau. e o rui correia também por lá andou a aprender os truques que o levariam à selecção.

master kodro said...

Grandes, grandes jogadores, Guetov e Mladenov! Já vem atrasado, mas obrigado pela recordação de nomes como N'Dinga (não jogava parado...), Basaúla e N'Kama (o cepo). Lembrei-me automaticamente da tríade Bené, Nené e René que povoou o plantel do meu Vitória. Um pouco ao jeito do Zézinho, Luisinho e Huguinho do Donald... ;)

melga mike said...

...e tambem havia o bé e o có do sacavenense (ou seria no O.M. ali ao pé da Expo?).

Anyway, venho por este meio desfazer o mito de que o Getov ensinou o Stoichkov a marcar livres: http://www.xtratime.org/forum/showthread.php?t=159579

nuff said?

nunomgl said...

Estou a ver que cheguei a Portimão quase vinte anos atrasado!

Grande blog!

Simõesonuevo said...

excelente artigo sobre o Guetov! A defender era menos um dentro do campo. Mas a atacar valia por 3. quanto aos livres...até hoje nunca vi ninguém que os marcasse tão bem!